quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Vale gasta R$ 50 milhões para adequar siderúrgica de Ubu
24/02/2010 - 00h00 ( - A
Gazeta)
Denise Zandonadi
dzandonadi@redegazeta.com.br
foto:
Divulgação
CSU
foi proposta pela Vale para ser construída em Ubu, na mesma área onde foi
projetada, em 2007, a Companhia Siderúrgica Vitória
(CSV)
Com investimento programado de R$ 25 milhões para
este ano, a Companhia Siderúrgica de Ubu (CSU), empreendimento da Vale cujo
projeto está em fase inicial de licenciamento ambiental, está desenvolvendo uma
série de estudos paralelos aos que foram solicitados pelos órgãos ambientais
para justificar o empreendimento.
No ano passado, a empresa já havia
investido outros R$ 25 milhões para a elaboração dos estudos necessários para
dar entrada no pedido de licenciamento no Instituto Estadual do Meio Ambiente
(Iema), em dezembro de 2009.
A CSU foi proposta pela Vale para ser
construída em Ubu, município de Anchieta em área onde, em 2007 foi projetada a
Companhia Siderúrgica Vitória (CSV). A empresa, que seria construída em parceria
com os chineses da Baosteel, foi rejeitada pelos órgãos ambientais sob a
alegação de que não haveria água suficiente para uma siderúrgica do porte
projetado e de que a região já tem alto índice de emissão de partículas no
ar.
Depois de rever o projeto e fazer uma série de modificações, a Vale
propôs a implantação da CSU no mesmo local, com capacidade para produzir as
mesmas 5 milhões de toneladas por ano. A CSV produziria 10 milhões de toneladas
apenas numa segunda etapa, por volta de 2018.
Disposta a conquistar as
populações dos municípios diretamente afetados pela usina, Anchieta, Piúma,
Guarapari e Alfredo Chaves (por causa da água ), a direção da CSU, comandada
pelo coordenador executivo da empresa, Marcos Chiorboli, já realizou 50 reuniões
com 19 comunidades. Os projetos de implantação da CSU e de um porto estão
orçados em US$ 6,2 bilhões.
Além disso, em função dos questionamentos da
população, a empresa já encomendou estudos sobre o uso da água, emissão de
partículas, geração de emprego e renda e utilização de mão de obra local para
referendar sua argumentação, independente dos estudos que foram elaborados para
o processo de licenciamento ambiental.
Resistência
A
implantação da siderúrgica em Ubu vem enfrentando resistência de ambientalistas
e moradores da região. A alegação é que haverá prejuízo para o meio ambiente,
principalmente em relação aos manguezais, que sofrerão com a eliminação do
resíduos da usina. A cata do caranguejo e o abastecimento de água também poderão
ser prejudicados, acreditam ambientalistas e moradores.
Esta não é a
visão da CSU e da Vale. "Vamos mostrar que a água doce será reutilizada na
usina, enquanto que a água do mar será reutilizada e recirculada num índice de
50%. A água utilizada, será depois tratada e lançado no mar por uma emissário
submarino. Não haverá prejuízo ao ambiente", assegura o coordenador de projetos
siderúrgicos da Vale, Dimas Bahiense.
Bairros com 400 pessoas vão
desaparecer
O projeto da nova siderúrgica no Espírito Santo pode
esbarrar em duas comunidades que, no total, reúne 130 famílias que residem
exatamente no centro da área onde a Vale pretende instalar a usina para produzir
5 milhões de toneladas de aço por ano. As famílias residem nas comunidades de
Monteiro e Chapada do A, distantes cerca de 4 km da sede de Anchieta.
Os
moradores das duas localidades, que afirmam ser proprietários das terras onde
moram, não são indígenas, segundo a direção da CSU. "Conforme informação da
própria Fundação Nacional do Índio (Funai), não há indígenas que habitam aquela
região onde está sendo desenvolvido o projeto da siderúrgica", explicou o
coordenador executivo do projeto, Marcos Chiorboli.
A propriedade da
terra que envolve as áreas das duas comunidades é reivindicada pela Samarco. As
áreas pertenciam à Vale, que as repassou para a Samarco quando adquiriu 50% de
participação acionária na empresa de Ubu. Mesmo assim, segundo os executivos que
cuidam do projeto da CSU, a proposta da Vale é de apresentar três alternativas
para as famílias.
Uma das propostas é a de construir um novo bairro, com
toda a infraestrutura necessária para que as cerca de 400 pessoas passem a
viver. Uma segunda proposta é a da realocação assistida, onde os proprietários
escolhem onde querem morar e a empresa faz o processo de mudança. Uma terceira
opção é de oferecer indenização pela terra para quem quiser sair da
região.
As 30 famílias da comunidade de Monteiro já estão em fase final
de negociação. A comunidade da Chapada do A, porém, ainda aguarda a conclusão de
estudos que a Vale solicitou para decidir o que fazer. A maioria dos moradores
deste grupo prefere, inicialmente, não sair da região.
Segundo o
presidente da Associação dos Moradores, Ostério Florentino dos Santos, "não
queremos sair daqui, mas também ninguém quer morar perto de uma siderúrgica.
Depende de onde a empresa vai oferecer pra gente morar", ressalta ele.
A
associação, segundo Florentino, já tem nova diretoria mas a ata da eleição ainda
não foi registrada em cartório, "por isso ainda posso falar pela entidade",
explicou ele.
Siderúrgica vai viabilizar porto e ferrovia
Além
de uma siderúrgica, a Vale pretende investir também na construção de um porto
numa área próxima ao Porto de Ubu utilizado pela Samarco para exportação de
pelotas de minério de ferro. O terminal CSU não será para movimentação de carga
geral, como estava previsto no estudo da primeira siderúrgica. Será um porto
para embarque de aço e importação e desembarque de carvão mineral, que é matéria
prima utilizada para a produção do aço. A Ferrovia Litorânea Sul também terá sua
construção viabilizada a partir concretização da CSU.
Vale só vai
anunciar o parceiro após licenciamento
Na posição de poder escolher com
quem vai dividir o projeto da siderúrgica em Ubu, a Vale insiste que só
anunciará o parceiro na CSU depois que o processo de licenciamento estiver
concluído. Os órgãos ambientais têm 12 meses para fazer o licenciamento, que foi
solicitado dia 17 de dezembro de 2009.
A resistência em falar agora do
parceiro no projeto é uma forma de evitar o que aconteceu quando foram iniciados
os estudos para a primeira siderúrgica, em 2007, que seria implantada com os
chineses da Baosteel. Passados alguns meses do anúncio da usina, que se chamaria
Companhia Siderúrgica Vitória (CSV), os órgãos ambientais concluíram que o
projeto, da forma como foi estruturado, não poderia ser instalado em
Ubu.
Abandonada pela Vale e pelos chineses, a CSV teve somente o seu
projeto de engenharia estrutural aproveitado pela mineradora, que está fazendo,
porém, uma série de modificações para adequar às exigências tanto dos órgãos
ambientais quanto dos moradores da região.
O coordenador executivo do
projeto da CSU, Marcos Chiorboli admite que há sim chineses interessados na nova
siderúrgica, mas não os da Baosteel. Há os europeus da Thyssenkrupp, há mais um
grupo europeu interessados, além da ArcelorMittal.
Entenda o caso
Parceiros. O projeto de implantação da siderúrgica e do porto em
Ubu está orçado, hoje, em US$ 6,2 bilhões. Enquanto não for aprovado o
licenciamento ambiental, a Vale não pretende buscar parceiros para a planta de
Anchieta. A mineradora está com projetos siderúrgicos também no Rio de Janeiro,
Ceará e Pará.
Investimento. A empresa investiu R$ 25 milhões, no
ano passado, no desenvolvimento de estudos para o processo de licenciamento
ambiental e deverá investir mais R$ 25 milhões neste ano em outros estudos cujos
resultados pretende apresentar para as comunidades durante as reuniões nos
municípios de Anchieta, Guarapari, Piúma e Alfredo Chaves.
Grupos
técnicos. Além do processo de licenciamento ambiental, o Instituto Estadual
do Meio Ambiente (Iema) criou grupos de trabalho com representantes da CSU,
prefeituras e representantes do governo estadual para discutir questões técnicas
relativas à implantação da usina. O resultado dos grupos, que discutem a questão
do fornecimento de água na região, lançamento de partículas de minério no ar, e
geração de emprego e renda, deverá ser apresentado ao órgão ambiental em
maio.
Treinamento. No período em que estiver sendo implantada a
usina, as unidades do Senai e Ifes (ex-Escola Técnica Federal) de Anchieta,
Guarapari e Piúma deverão treinar e qualificar cerca de 5 mil profissionais que
poderão ser aproveitados no processo de operação da siderúrgica.
Área.
A CSU será implantada numa área de 700 hectares, mas a empresa está
destinando uma área total de 2 mil hectares para o projeto. Deste total, 300
hectares serão para proteção ambiental. Pelo menos 500 hectares foram comprados
para o empreendimento.
Porto. O terminal portuário será
construído com 20 metros de calado e os píeres de atração ficarão a menos de 2
km da costa, situação muito mais favorável do que em Itapemirim, onde, para
obter este calado, o pier teria que ficar a cerca de 10 km da
costa.
Os números
Construção. No período de implantação
da Siderúrgica de Ubu, a empresa calcula que serão utilizados diversos
equipamentos de segurança que poderão ser comprados de fornecedores capixabas.
Os equipamentos são 1,5 milhão de pares de luvas; 120 mil pares de botas; 60 mil
capacetes; e 350 óculos de segurança.
Energia. Com os gases
resultantes do processo de produção do aço, a CSU gerará 320 MW de energia
elétrica, a partir de duas termelétricas. Deste total, 195 MW serão utilizados
na própria siderúrgica, que será autossuficiente em energia e 125 MW serão
disponibilizados no sistema nacional de energia elétrica