segunda-feira, 1 de março de 2010
Entrevista > > Paulo Hartung > >Governador do Estado
28/02/2010 - 00h00 (Outros - A
Gazeta)
por Andréia Lopes e Denise Zandonadi
alopes@redegazeta.com.br / dzandonadi@redegazeta.com.br
“O
estaleiro garante nosso futuro”
Em ritmo acelerado de trabalho,
inaugurando obras, visitando vários municípios por semana e mantendo o
cronograma de viagens para o exterior – acabou de voltar dos Estados Unidos e já
tem outra programada para a Holanda, dia 13 de março – o governador Paulo
Hartung está empenhado em deixar sua marca no desenvolvimento econômico do
Espírito Santo. Sem dizer sim ou não para a possibilidade de se candidatar a um
cargo eletivo nas eleições de outubro – já se cogitou até de ele ser vice na
chapa da candidata do PT, Dilma Rousseff à presidência da República – Hartung
falou para A GAZETA, sexta-feira, com muita ênfase e muitas gesticulações, sobre
licenciamento ambiental e a campanha que vem sendo feita contra os grandes
projetos industriais em avaliação pelos órgãos ambientais do
Estado.
Governador, qual foi o resultado da sua visita às empresas
ligadas ao setor de petróleo nos Estados Unidos?
Bem, nós visitamos
a empresa Edson Chouest Offshore, na Louisiana, para conhecer a base dela no
Golfo do México. Os executivos da empresa já tinham vindo ao Estado e, depois da
nossa visita, eles anunciaram que vêm mesmo para o Espírito Santo. A empresa
atua em duas atividades muito fortes na área de petróleo: uma é o fornecimento
para plataformas de exploração e produção. É uma estrutura que nós não
conhecemos no Brasil. Estamos acostumados a ver a estrutura do tipo de Macaé,
onde o barco atraca numa estrutura simples e é abastecido. Não é nada disso que
eles têm. O barco entra de ré numa estrutura coberta, onde estão armazenados os
produtos e tudo é movimentado com pontes rolantes. Eles têm uma base no Golfo do
México, na cidade de Galleano, que nós visitamos. É isso que eles querem
implantar aqui.
Bem, então eles já têm ideia do que precisarão em
termos de área?
Sim, e eu já me reuni com a equipe para que o
governo possa dar duas ou três opções de área para a empresa escolher. Vamos
fazer isso na segunda-feira (amanhã). Mas, a Chouest tem uma segunda atividade,
que é o trabalho de construir estes barcos que fazem o fornecimento. Eles já
montaram um estaleiro desse tipo em Santa Catarina, já estão fabricando barcos
no Brasil, mas pensam num segundo investimento do tipo. Isso porque nós somos
fabricantes de aço, temos uma indústria metalmecânica desenvolvida que está
crescendo e estamos caminhando com a possibilidade de ter um estaleiro (Jurong,
em Barra do Riacho). A empresa tem uma faturamento anual de US$ 3 bilhões e oito
mil funcionários e é uma das maiores empresas do mundo.
De quanto
seria o investimento no Estado?
O investimento é significativo e seria
em torno de R$ 300 milhões. Além disso, se for concretizado, terá um impacto
enorme na geração de emprego e no recolhimento de impostos. A empresa tem 40
embarcações no Brasil. É a segunda maior frota do Brasil de embarcações de
abastecimento de plataformas. Empresas como a Shell, Anadarko, Devon e Petrobras
são clientes tradicionais da empresa.
Outro projeto pelo qual o senhor
vem brigando, a fábrica de fertilizantes, pode ser invibializada com a proposta
de criação de uma estatal parta gerenciar o setor, como foi anunciado esta
semana pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão?
Eu acho que
esta questão não é a principal, ela é lateral. Na verdade, parece que querem
requentar este assunto porque, desde o início, está decidido no governo federal
outra coisa. Desde o início, nas conversas que venho tendo com o presidente
Lula, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, a ministra-chefe da Casa
Civil, Dilma Rousseff e o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, está
definido que estas duas fábricas de fertilizantes são de propriedade da
Petrobras, então, vão ser estatais. Serão da Petrobras porque precisam ter uma
coordenação com o fornecimento de gás da estatal para aproveitar o gás natural
que sobrar das termelétricas. Me parece que este não é um assunto novo: esta
decisão de não trazer um sócio privado não é novo. Desde o início, a Petrobras
deixou muito claro que ela desenvolveria o projeto sozinha. A decisão deverá ser
técnica e, numa decisão técnica, é quase 100% que será uma planta em Cacimbas e
outra em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. O estudo técnico que eu conheço
leva a esta decisão.
Como o senhor está vendo toda esta discussão
sobre a concessão ou não da licença ambiental para instalação do estaleiro em
Barra do Riacho?
A decisão tomada na quinta-feira, em Aracruz – onde
o Conselho Regional do Meio Ambiente (Conrema) concordou que o Iema inicie o
processo de licenciamento – dá condições ao Jurong de entrar na disputa pelas
plataformas que a Petrobras deverá licitar. Não é que a decisão de quinta-feira
garanta a instalação do estaleiro. O que nos garantirá um estaleiro é a Jurong
ganhar uma concorrência expressiva na Petrobras. Mas, a pré-condição para a
Jurong ganhar a licitação – são 17 plataformas de perfuração e produção – está
dada. Uma conquista como essa será fundamental para o futuro do Espírito Santo.
Se a gente consolida uma indústria de barcos e construção de plataformas no
Estado, poderemos sobreviver ao fim do petróleo aqui. Esta proposta está na base
do Programa 2025, o adensamento das cadeias produtivas, a atração de novas
cadeias produtivas. É a base para deixarmos de ser somente fornecedores de
petróleo e gás e passarmos a ser processadores dos produtos.
E o
licenciamento da siderúrgica de Ubu, que também tem gerado tanta polêmica?
O Instituto Estadual do Meio ambiente (Iema) já publicou no Diário
Oficial toda a metodologia de análise do processo de licenciamento da
siderúrgica de Ubu. E, na minha visão, é o que tem de mais moderno em
licenciamento no país. E é bom lembrar que já foi contratada um Avaliação
Ambiental Estratégica da região, nos estudos iniciais, quando foi feita a
proposta da Vale em parceria com a Baosteel. Mas, são projetos distintos. Antes,
era um projeto para produzir 10 milhões de toneladas, agora é um projeto para 5
milhões de toneladas por ano. É metade. Mas, é o licenciamento que vai
determinar se haverá siderúrgica na região ou não. Para o Estado, ainda tem uma
questão muito importante: o projeto viabiliza a Ferrovia Litorânea Sul e o porto
para embarque do aço. Quer dizer, viabiliza uma âncora de reorganização da base
econômica do Sul do Espírito Santo. Não é pouca coisa. Mas não vai ser feito a
qualquer preço.
O projeto pode, então, não ser aprovado?
Este é um governo que sabe dizer sim, sabe dizer não e sabe dizer
sim com condicionantes, no que se refere ao licenciamento ambiental. Estamos
trabalhando com muita transparência, mas tem muito pescador de águas turvas em
torno desse projeto e a gente tem que estar muito atento a isso. Muitos
neoambientalistas anos atrás estavam envolvidos com a corrupção. Temos que olhar
de onde vem isto. Ontem eu disse a uma jornalista: jabuti não sobe em árvore. Eu
aprendi com um professor meu e depois eu ouvi José Serra (governador de São
Paulo), no Congresso Nacional, quando eu fui deputado federal na mesma
legislatura que ele: jabuti não sobe em árvore e quando você vê isso, ou é uma
enchente ou mão de gente.
O senhor está se referindo a que ou a quem,
governador?
Enchente ou mão de gente. Enchente nós não estamos
tendo, ao contrário, estamos precisando de chuva, então é mão de gente. Ah,
fulano fez uma cartinha, mandou um e-mail, mas quem é fulano? Chegaram ao
absurdo de fazer um ataque à secretária do Meio Ambiente (Glória Abaurre). A
secretária trabalhou em uma empresa privada antes de trabalhar no governo e, por
isso, foi acusada de não estar apta para exercer o cargo com isenção.
Quando fala dos ataques, o senhor se refere ao dia da prestação de
contas na Assembleia Legislativa?
Não, estou ouvindo as coisas em todo
lugar. Estou colocando as coisas com clareza. A gente tem que ter cuidado senão
ninguém do setor privado vai ter a coragem de trabalhar no setor
público.
O senhor, então, assume que haverá um rigor no licenciamento
ambiental nesta região?
Nunca faltou rigor em região alguma. Eu acho que
nós somos exemplo no país em termos de trabalho ambiental. Se este governo não
tivesse o compromisso que tem – afinal nós temos uma militância histórica no
âmbito ambiental – nós teríamos feito o que fizemos na Secretaria do Meio
Ambiente? Nós tomamos a secretaria do crime organizado, que tinha se apossado
daquilo lá e tinha transformado aquilo numa ONG. Reorganizamos a secretaria,
fizemos concurso e estruturamos o corpo técnico. Nós licenciamos a duplicação da
ArcelorMittal Tubarão, licenciamos a terceira usina da Samarco, a oitava usina
da Vale (que está em construção), quer dizer, não é pouca coisa. É preciso olhar
onde estão estas pessoas que estão fazendo estas campanhas por e-mail, por
carta, ver quem são, o que fizeram nos últimos tempos. Os movimentos
ambientalistas e as ONGs são movimentos normais, é da vida democrática. Estes eu
considero parceiros, mesmo quando estão apertando o governo para que crie uma
condicionante mais forte. Não é a esses que estou me referindo nem à Assembleia
Legislativa.
O senhor está se referindo a quem?
Estou fazendo
um alerta, não vou bater boca com ninguém, Não vou dar escada para vagabundo de
décima categoria, não vou fazer isso. Agora, o trabalho está sendo feito com
seriedade, com zelo. Olhe para o Porto de Açu, no Rio, a siderúrgica do
Atlântico, que eu fui visitar e depois me digam qual a
diferença.
Governador, vamos falar de política. O senhor disse que
está no último ano de governo. Está no último ano ou último mês?
Estou
no último ano. Em qualquer circunstância, este 2010 é o último período do meu
governo. Agora, a decisão vai sendo amadurecida ao longo deste período. No final
do ano, eu disse que quando chegasse em meados de março, eu teria mais elementos
para tomar uma decisão. Gostaria de ter mais elementos para
decidir.
Quais elementos?
Esta decisão poderia ser tomada em
junho, junto com as convenções partidárias. Este negócio de desincompatibilizar
é complicado. Quando chegar no final de março, decidirei também com base no que
eu ouvir. Eu ouço muito antes de decidir. Vou fazer pesquisas e estou levando
tudo em conta, vou amadurecer uma decisão, a que for melhor, até o final de
março, que é um prazo meio maluco, mas é o que prevê a lei.