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Entrevista

6/6/2010        Fonte: A Gazeta       

por Denise Zandonadi 

dzandonadi@redegazeta.com.br


Benjamin Baptista Filho, presidente da Arcelor Mittal Tubarão

Aço sairá de Tubarão acabado
Prestes a retomar totalmente a sua capacidade de produção, depois de passar por meses com o alto-forno 2 desligado por conta da crise do ano passado, a ArcelorMittal Tubarão (antiga CST) anuncia uma nova fase: a empresa deixará de produzir placas de aço para o mercado externo para se concentrar na produção de aço laminado e galvanizado para o mercado interno. A empresa deixará de exportar placas brutas de aço para beneficiar bobinas e disputar o mercado interno. Para isso, deverá receber pelo menos mais US$ 800 milhões em investimentos numa nova planta para laminação, segundo o presidente da empresa no país, Benjamin Baptista Filho, que falou esta semana com A GAZETA.

Expansão de Tubarão
“Aqui em Tubarão, na área de aços planos, nós temos ainda 3,5 milhões de toneladas de placas que não laminamos, que sai bruto para a exportação. Na atual configuração, aqui em Tubarão, nós temos uma produção total de 7,5 milhões de toneladas de placas, sendo que 4 milhões de toneladas nós já laminamos. Queremos pegar esse volume que estamos exportando, 3,5 milhões de toneladas, deixar de exportar e transformar em produtos acabados. Uma ideia seria colocar um segundo laminador de tiras a quente para usar esses remanescentes. Estamos estudando também ampliar a capacidade de laminados a frio e a implantação de equipamentos de galvanização aqui em Tubarão. Ainda estamos estudando a melhor alternativa, em termos de localização e projetos de investimento, no que se refere à galvanização e à laminação. O que está decidido, em termos de projeto, é que vamos colocar um segundo LTQ aqui em Vitória. Provavelmente, dessas 4 milhões que laminamos aqui, 1,4 milhão deve ir para Vega (do Sul, em Santa Catarina), já que Vega iniciou a segunda linha de galvanização em abril. A Vega hoje está com duas linhas de galvanização, sendo uma linha de 500 mil toneladas, focada na indústria automobilística e uma segunda linha, que entrou em operação em abril deste ano, voltada para a produção de galvanizados para o setor de eletrodomésticos e construção civil.”

Mercado interno
“O mercado doméstico está crescendo de forma acelerada e em função deste crescimento econômico no Brasil, precisa-se de mais aço no mercado doméstico. E em Tubarão temos uma situação privilegiada porque temos placas de aço e podemos produzi-las em tempo mais curto, mais rápido, porque não precisamos ampliar nossa capacidade de produção.”

Concorrência
“Nossos concorrentes diretos, CSN e Usiminas, não têm placas para ampliar sua produção de aço acabado para o mercado interno. Para que os dois entrem neste mercado de produto acabado precisam construir uma planta nova, o que vai levar muito tempo e dinheiro. O que quero dizer é que temos aqui em Tubarão uma janela para aproveitar esta nova fase de crescimento econômico do Brasil e, em termos econômicos, é muito melhor produzir produtos acabados do que placas de aço bruto para a exportação.”

CSU
“A nossa expectativa é de que a Vale, quando estiver com o projeto de licenciamento pronto em Ubu, nos convide também para analisar uma possível parceria para a implantação do projeto. Por enquanto, a Vale decidiu conduzir sozinha o processo de licenciamento para, só depois, iniciar as negociações.”

Custo-Brasil
“Eu já disse no congresso do Instituto Aço Brasil, em São Paulo, em abril, uma coisa que voi repetir agora: projetos para produção de placa para exportação, do ponto de vista econômico, ficaram muito difíceis de serem implantados no Brasil porque o país ficou caro demais. Apenas para se ter uma ideia, se você pegar a variação do câmbio dos últimos cinco anos – de abril de 2005 a abril de 2010 –, o real valorizou 32% frente à moeda norte-americana enquanto que o IGP sofreu um aumento de 21% no mesmo período. Multiplicando um pelo outro, é possível perceber que os projetos ficaram pelo menos 60% mais caros, em dólar, neste período. Ou seja, uma coisa que você fazia há cinco anos por mil dólares, agora terá que gastar US$ 1,6 mil dólares. Por isso é que grande parte dos investimentos feitos hoje no Brasil não são voltados para a exportação, mas sim para o mercado interno.”

América do Sul
“Temos exportação bastante significativa de laminados a quente (bobinas), mas a maior parte é para países da América do Sul, que é carente de produtos acabados no segmento de aço. Indústria grande, siderúrgica, hoje tem mesmo no Brasil e na Argentina. Existia a Acidor, na Venezuela, mas a situação lá está tão caótica que a produção está reduzida a praticamente 20% da capacidade da planta. Outros países da América do Sul não têm siderúrgica integrada, forte. São, necessariamente importadores e importam do Brasil, México e Argentina. Para esses países, vamos continuar exportando laminados a quente. Nós exportamos muito chapa galvanizada para as indústrias automotivas argentinas. Agora, levar produto acabado para os Estados Unidos, Europa e Ásia, é muito difícil, além das questões tarifárias.”

Altos-fornos
“Basicamente, os projetos que tínhamos em desenvolvimento já acabaram. O maior, agora, é todo o projeto para a reforma do alto-forno 1, que é o maior em operação da companhia e o que está há mais tempo em produção no mundo. Estamos prevendo pará-lo em abril de 2012 e será preciso fazer todo um investimento para a reforma e uma preparação longa porque a parada está sendo programada para ser feita em apenas 80 dias. Tem que estar tudo preparado.”

Laminador novo
“Um dos nossos projetos prevê a construção de mais um LTQ (laminador a quente) em Tubarão, que deverá entrar em operação em 2013. O investimento deve chegar a US$ 800 milhões e será possível laminar toda a produção de placas de aço da siderúrgica, que hoje é de 7,5 milhões de toneladas.

Retomada
“Decidimos não rerligar ainda o alto-forno 2. Ele está preparado para isso desde 14 de abril, mas não foi ligado. Este forno tem capacidade para produzir 1,3 milhão de toneladas por ano e podemos acendê-lo em 48 horas. Mas, com o brutal aumento nos preços das matérias primas que estamos enfrentando, não compensa reiniciar a produção agora. No mês de maio, houve uma grande perturbação no mercado internacional, por conta desta situação na Grécia, Espanha e, também, na Ásia, além do conflito nas duas Coréias. Tudo isso mexeu com o mercado. Nós decidimos que só vamos ligar o forno quando for compensador.”

Preço do minério
“A partir de 1º de julho, o preço do minério de ferro, principal matéria prima para produção de aço aumentará 130% em relação com ao quarto trimestre do ano passado. E os preços do carvão, no mercado internacional, aumentaram 79%, quando feita a comparação com o mesmo período. Com esse tipo de custo, é preciso avaliar muito bem a hora certa de retomar a produção.”

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