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Corte em obras pode sacrificar 10 mil vagas

12/6/2010        Fonte: A Gazeta        Página: 14
Mikaella Campos
malmeida@redegazeta.com.br
Rosana Figueiredo
Da Redação Multimídia

As perdas referentes ao petróleo devem impedir a criação de pelo menos 10 mil empregos no Estado. Os postos seriam gerados em obras públicas, feitas com os recursos dos royalties, segundo o governo estadual. A redução da receita também deve comprometer a construção de escolas, unidades de saúde, estradas, penitenciárias, delegacias, hospitais e obras de infraestrutura.

O secretário de Estado de Planejamento, José Eduardo Azeredo, estima que a capacidade de investimento do governo deve ser reduzida em 50%. Entre as obras que sairão prejudicadas estão as construções do novo estádio Kléber Andrade, de estradas no interior do Estado, da rodovia Leste-Oeste, em Vila Velha, a alça da Terceira Ponte e o viaduto da Darly Santos.

Com a nova distribuição de royalties, algumas prefeituras preveem anos difíceis pela frente. Para o prefeito de Aracruz e presidente da Comissão de Petróleo e Gás da Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes), Ademar Devens, todas as cidades capixabas vão sair perdendo com essa nova distribuição dos royalties.

O prefeito de Presidente Kennedy, Reginaldo dos Santos Quinta, acredita que a mudança será uma catástrofe. O município é o que mais será prejudicado. A arrecadação de mais de R$ 70 milhões anuais deve cair para R$ 700 mil. Esse valor representa 1% do que a cidade ganha hoje com royalties. Para ele, o município vai regredir. E tudo que estava planejado, vai parar.

Itapemirim também sofrerá o impacto. A cidade recebe atualmente R$ 12 milhões por ano de repasse. Pela proposta, passará a ganhar R$ 1,5 milhão.

Para o secretário de Finanças do município, Éder Botelho, o nível de investimentos cairá a zero. “Só em maio deste ano, recebemos mais de R$ 1,5 milhão. Se o presidente sancionar a mudança, não vai chegar nem a R$ 200 mil por mês. O município já está se preparando para cortar projetos e o ritmo de algumas obras foi reduzido. Muitos municípios contam com a arrecadação tributária, como ISS. Mas Itapemirim tem um baixo recolhimento de impostos. O que temos só dá para pagar o funcionalismo”.

Outra região que será bastante afetada com as mudanças é Anchieta. O município, que começou a produção de petróleo neste ano, não terá nem tempo de sentir o gosto de uma grande arrecadação. Até 2009, a cidade recebia, em média, R$ 2,6 milhões. A expectativa era de ganhar cerca de R$ 11 milhões em 2010 e mais de R$ 14 milhões em 2011.

“Planejamos todo nosso orçamento participativo em cima dos royalties. Este ano, por exemplo, vamos usar R$ 9 milhões em obras consideradas prioritárias pela comunidade, como construção de escolas, de centros de convenções, praças”, explica o secretário da Fazenda, Dirceu Porto de Mattos.

Só em maio, segundo ele, a cidade recebeu quase R$ 2 milhões, cerca de 73% de tudo que foi pago em 2009. “Se a distribuição continuasse assim, acredito que teríamos a chance de receber um valor ainda maior de royalties, pois a produção de petróleo aqui vai aumentar”.

Veja os municípios mais afetados

Presidente Kennedy
Arrecadação
Cairá de R$ 70 milhões para R$ 700 mil por ano.

O que não será feito
Os investimentos devem ser suspensos. Não serão construídas escolas, nem feitas pavimentações. Devem ser cortadas ações em saúde.

Itapemirim
Arrecadação
Cairá de R$ 12 milhões por ano para R$ 1,5 milhão.

O que não será feito
A cidade deve deixar de aplicar em pavimentação, calçamento e saneamento. Não serão comprados equipamentos para saúde e as construções de escolas sairão do orçamento.

Anchieta
Arrecadação
O município arrecadava, até 2009, R$ 2,6 milhões anualmente. Mas este ano, com o início da produção de petróleo, o ganho subirá para R$ 11 milhões. A expectativa é de que a perda seja de 60%.

O que não será feito
Com os royalties do petróleo, a prefeitura havia planejado aplicar R$ 9 milhões no orçamento participativo (OP) deste ano. Se o município perder a renda, a partir do ano que vem, ficariam comprometidas as ações do OP, como construção de ruas, escolas, construção de praças e de centros de convivência.

Aracruz
Arrecadação
Cairá de R$ 12 milhões para R$ 2,6 milhões.

O que não será feito
Obras nas áreas de saúde, educação e pavimentação ficarão comprometidas. As obras do Orçamento Participativo serão prioridade.

Linhares
Arrecadação
Cairá de R$ 30 milhões para R$ 9 milhões.
O que não será feito
A prefeitura planejava investir R$ 120 milhões. Ações na áreas de infraestrutura, saúde e educação serão reavaliadas.

“Sociedade não entendeu o tamanho das perdas”
“Até pela velocidade como as coisas aconteceram, a sociedade capixaba ainda não se deu conta do tamanho das perdas que o Espírito Santo (Estado e municípios) sofrerá. A sociedade precisa entender o que está acontecendo e se mobilizar com urgência para mudar o quadro”.

O alerta é do vice-presidente Institucional da ONG Espírito Santo em Ação, Alexandre Nunes Theodoro, que está preocupado com a perda de receita proveniente dos royalties do petróleo. “Nossa preocupação é porque saímos de uma cifra de bilhão e vamos cair para milhões na receita dos royalties”, disse ele, ao referir-se à aprovação da Emenda Simon no Senado Federal.

A preocupação aumenta, explicou, porque todo o desenvolvimento para as várias regiões do Estado “foi pensado e planejado com esse recurso. Perdemos, todos nós da sociedade, não apenas o governo”, enfatizou Theodoro. A queda na receita dos royalties, avalia, vai prejudicar o programa de investimentos no Estado.

A sociedade capixaba, destacou, precisa entender, com clareza, “o que está acontecendo hoje e o que acontecerá com o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos e se mobilizar para garantir o que estava acordado com o presidente Lula, que é manter o que já está em produção e licitado”, argumentou.

Prejuízo
Na avaliação do vice-presidente da Ong, o que aconteceu no Senado, na madrugada da última quinta-feira, “foi uma coisa absurda”, que trará prejuízo incalculável para o Espírito Santo e o Rio de Janeiro, os principais Estados produtores de petróleo do país. A luta da sociedade, agora, deve ser no sentido de impedir que as propostas aprovadas pelos parlamentares virem leis.

Theodoro frisou que a população precisa se mobilizar para mostrar aos parlamentares que os Estados produtores são fortemente impactados pela atividade e precisam ser compensados por isso. O pagamento dos royalties, explicou, é uma maneira de ressarcir os produtores pelos impactos causados pela extração de óleo.

Embora a situação hoje seja desfavorável ao Espírito Santo, ainda existem alternativas que podem corrigir a perda de receita. Uma delas é a Câmara Federal rejeitar a Emenda Simon. A outra alternativa é o presidente Lula vetar as propostas aprovadas pelos deputados e senadores.

Se as duas alternativas não apresentarem os efeitos desejados, o caminho é buscar a terceira alternativa, que é recorrer à Justica para declarar a inconstitucionalidade da lei. Só que esse é o caminho mais longo.
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