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Luz e Força Santa Maria: P&D, irrigação e tarifa dinâmica

  • Foto do escritor: CDMEC
    CDMEC
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Alexsandre Leite Ferreira mostrou na Ilha da Inovação como a distribuidora capixaba transforma R$ 700 mil por ano em pesquisa que vira solução no campo e referência tarifária no país.

Enquanto a maioria das distribuidoras de energia do Brasil registra seu pico de consumo por volta das seis ou sete da noite, a Empresa Luz e Força Santa Maria via sua carga máxima acontecer às onze. O motivo não estava nas cidades, estava na lavoura: a irrigação do café. Foi de constatações como essa, tiradas da própria área de concessão, que nasceu um programa de pesquisa e desenvolvimento que hoje serve de base para discussões de modernização tarifária no país.

Quem contou essa história foi Alexsandre Leite Ferreira, diretor da ELFSM — Empresa Luz e Força Santa Maria —, em apresentação na Ilha da Inovação, o espaço montado pelo CDMEC dentro da MEC SHOW 2026, no Pavilhão de Carapina, em Serra. A palestra integrou o painel sobre investimentos em P&D e seus impactos na inovação capixaba.

O recado central foi direto e vale para qualquer empresa que pense em pesquisa: pesquisa por pesquisa não serve para nada.

“Fazer pesquisa por fazer pesquisa não tem muito sentido. A pesquisa tem que ter algum resultado que possa ser aplicável. Só assim a gente vai conseguir trazer algum benefício para o consumidor, que é, na verdade, quem paga essa conta.”

80 anos, 11 municípios e uma das maiores cargas rurais do Brasil

A Santa Maria completa 80 anos em 2026. A primeira concessão foi assinada em 1946, para atender o que era então o município de Colatina. Aquele território se desmembrou e virou os 11 municípios que formam hoje a área de concessão da distribuidora, no noroeste capixaba, entre eles Colatina, São Gabriel da Palha, Pancas, Marilândia e Governador Lindenberg.

São cerca de 130 mil unidades consumidoras, o equivalente a aproximadamente 10% do território e da carga do Espírito Santo. O traço que define a empresa, porém, é outro: a penetração rural. Segundo Alexsandre, em termos percentuais a Santa Maria é provavelmente a distribuidora com maior carga rural do Brasil, puxada principalmente pela irrigação de culturas, com destaque para o café.


Como funciona o P&D regulado pela ANEEL

O programa de pesquisa da distribuidora não sai do lucro da empresa. Ele é um recurso regulado, criado pela Lei 9.991, de 2000: sobre a tarifa de energia elétrica já calculada incide mais 1%, destinado a projetos de eficiência energética e de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Parte desse valor vai para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e para o Ministério de Minas e Energia; o restante fica sob gestão da própria distribuidora.

É dinheiro do consumidor, e Alexsandre fez questão de reforçar isso mais de uma vez ao longo da apresentação.

“Todo mundo aqui que paga a conta de luz está pagando: 1% da sua conta está sendo utilizado para a eficiência e para pesquisa, desenvolvimento e inovação.”

O critério de escolha dos projetos segue sempre a mesma ordem: primeiro identificar um desafio real da concessão, depois procurar quem melhor consiga resolvê-lo. A área de concessão funciona como laboratório, e a exigência é que o resultado seja escalável, aplicável dentro e fora da região.


Da irrigação do café ao estudo que virou referência tarifária

O primeiro projeto que Alexsandre detalhou começou em 2009 e durou três anos. O objetivo era entender os hábitos dos consumidores irrigantes, responsáveis por deslocar o pico de carga da distribuidora para as onze da noite.

A solução veio de um lugar inesperado. Em Itajubá, em Minas Gerais, já existia tecnologia de sensores desenvolvida para monitorar enchentes, cidade onde a água sobe de uma hora para outra. A equipe adaptou esse mesmo princípio para a lavoura: sensores que identificam a necessidade real de água da planta e acionam a bomba de irrigação no momento certo. Os resultados foram apresentados diretamente aos irrigantes da região.


O estudo revelou um problema maior. A extensão de rede necessária para atender os irrigantes gerava uma transferência de custos: consumidores de média tensão, como indústrias e supermercados, acabavam pagando mais caro por conta dessa estrutura. A investigação virou um livro que hoje é usado como base em consultas sobre modernização tarifária, e cujo último capítulo já antecipava o problema que o setor enfrenta agora — o excesso de geração distribuída em momentos de carga baixa.


Tarifação dinâmica: cobrar menos quando sobra energia

Do capítulo final daquele livro nasceu o projeto atual. A ideia da tarifação dinâmica é simples de enunciar e complexa de executar: a tarifa passa a olhar a curva de carga da distribuidora em tempo real e sinaliza ao consumidor quando há energia sobrando, cobrando menos para estimular o uso da rede naquele momento.

O aplicativo já está pronto e em fase final de validação, com previsão de conclusão até o fim de 2026. A distribuidora chegou a criar um corredor elétrico de abastecimento que vai de Colatina até São Gabriel da Palha, na outra ponta do sistema.

O próximo passo já está com contrato em assinatura e mira inteligência artificial aplicada à experiência do cliente: uma plataforma integrada em que o profissional que precisa submeter um projeto elétrico para aprovação da distribuidora consiga fazer tudo em um só lugar e sair com o projeto aprovado no mesmo dia.


O que o público perguntou

Questionado sobre o tamanho da carteira, Alexsandre foi transparente: a Santa Maria dispõe de algo entre R$ 600 mil e R$ 700 mil por ano para P&D, cerca de 10% do volume de uma distribuidora como a EDP. Como vários projetos custam mais do que isso, a empresa usa a prerrogativa de acumular recursos por até três anos e trabalha com um projeto por vez, buscando mais qualidade no resultado final.

Sobre a seleção de projetos, ele explicou que a Santa Maria é dispensada de chamada pública. A empresa recebe propostas de instituições e companhias interessadas, mas os dois últimos projetos — a metodologia de construção de tarifas e a tarifação dinâmica — nasceram de dentro de casa, a partir de necessidades identificadas pela própria distribuidora.

Carlos Henrique Veloso, presidente do CDMEC, levantou a questão que talvez mais interesse a quem olha o setor de fora: como uma distribuidora de pequena escala, com 40% de clientes rurais, se sustenta financeiramente. A resposta está no desenho regulatório. A irrigação na área de concessão tem 60% de subsídio, custeado pelos demais consumidores do país por meio da Conta de Desenvolvimento Energético. O mesmo vale para a parcela da geração distribuída que cabe à distribuidora.

O peso da geração distribuída na região é notável: já responde por quase 20% do mercado, e a área de concessão registra 1,8 vez mais geração distribuída que a média nacional, favorecida pela insolação e pela extensão do território atendido.

Alexsandre lembrou ainda que o mesmo 1% da tarifa financia projetos de eficiência energética, e citou um resultado concreto: praticamente 100% da iluminação pública da área de concessão já é LED graças a esses recursos. Hoje a distribuidora mantém três frentes de pesquisa em andamento — tarifação dinâmica, inteligência artificial no atendimento e inserção de geração distribuída — e já desenvolveu um microinversor para geração distribuída, que a empresa chegou a tentar patentear.



 
 

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