PDF: como o ES virou referência em fornecedor local - Durval Vieira de Freitas - Energize-se! Ep#051
No episódio 51 do Energize-se, o consultor Durval Vieira de Freitas, ex-presidente do CDMEC e criador do PDF, conta como o Espírito Santo deixou de ser o patinho feio do Sudeste e passou a exportar método e fornecedores para o Brasil.
Podcast Energize-se | Todo o conteúdo deste artigo foi extraído da entrevista. | O link para a gravação integral da entrevista no Youtube está no final desse artigo.
Condução: Carlos Henrique Veloso de Carvalho e Carlos Jardim Sena, Presidente e Vice-presidente do CDMEC.
O convidado do episódio 51 do Energize-se tem a história da indústria capixaba misturada à própria biografia. Durval Vieira de Freitas, fundador e CEO da DVF Consultoria, ex-presidente do CDMEC e criador do PDF, o Programa de Desenvolvimento de Fornecedores, completou 80 anos em agosto e segue em campo, agora levando a metodologia para projetos de mineração em Goiás.
Ao longo de pouco mais de uma hora, ele contou como um engenheiro nascido num sítio do interior fluminense ajudou a transformar a forma como as grandes empresas compram no Espírito Santo, e por que, na visão dele, o estado ainda divulga muito pouco o que sabe fazer.
Do sítio à siderurgia
Durval nasceu em Laje do Muriaé, no interior do Rio de Janeiro, filho de pais que não sabiam ler nem escrever. Na cidade, vendia bolo e laranja no campo de futebol e engraxava sapatos. A primeira bicicleta veio da venda de cheiro-verde, num canteiro que a mãe deixou sob sua responsabilidade.
Escolheu a engenharia por causa do caminhão velho do pai, que vivia quebrando. Formou-se engenheiro industrial mecânico pela Universidade Federal Fluminense em 1968 e entrou na Cobrapi, empresa de projetos de engenharia ligada à Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, onde ficou 22 anos.
Lá, projetou a tubulação da primeira fábrica de oxigênio para uso industrial da CSN e, aos 24 anos, assumiu a chefia do departamento de utilidades, trabalhando ao lado dos engenheiros da United States Steel. Em 1974, um estágio na Kaiser Engineering o colocou entre os primeiros profissionais do país a aprender gerenciamento de projetos como disciplina.
Na crise dos anos 1980, coordenou pacotes de exportação de engenharia para países como Argélia, Egito e Peru e, a pedido do BNDES, dirigiu a Cosinor, siderúrgica de Recife, na preparação para a privatização.
O patinho feio do Sudeste
Em 1988, a Cobrapi o mandou para Vitória para a duplicação da Siderúrgica de Tubarão. O cenário que encontrou foi de grandes empresas instaladas, como Vale, Samarco e Aracruz, comprando quase tudo de fora do estado.
“O Espírito Santo era o patinho feio da região Sudeste. Quando eu falei que vinha para o Espírito Santo, meus colegas falaram: você está em decadência.”
Com apoio do Bandes, Durval fez um diagnóstico do que as grandes empresas compravam e do que o estado tinha para oferecer, montou um escritório de engenharia com 300 pessoas e, com a Ufes, criou um curso de introdução à siderurgia. Foi nessa mesma época que o Bandes estimulou a criação de centros tecnológicos setoriais, entre eles o CDMEC, cuja ata de fundação é de 30 de novembro de 1988.
Em 1990, o Plano Collor levou ao fim da Cobrapi. Durval conta que se recusou a demitir colegas e preferiu ser o primeiro a sair, para ficar no Espírito Santo. Em 1993, criou a DVF Consultoria.
Como o PDF nasceu sem nome
O CDMEC existia, mas tinha pouca atuação. Num almoço de diretoria, Durval criticou a entidade e ouviu de um colega a provocação: por que você não assume? Assumiu. Levou o CDMEC para dentro do Sindifer, porque, na visão dele, uma entidade precisa de casa para que os associados saibam onde encontrá-la.
Vieram os treinamentos, os encontros com empresários e as primeiras viagens a feiras em São Paulo. Sem perceber, conta Durval, o grupo estava construindo o PDF. O programa começou como Potencialização do Fornecimento Local, em 1995, e ganhou nome e metodologia depois.
Um fator decisivo foi a Constituição de 1988, que passou a exigir estudo e relatório de impacto ambiental e audiência pública para projetos de grande porte. Nas audiências, porém, discutiam-se ar, água, resíduos, fauna e flora, e ninguém levantava a bandeira socioeconômica. O CDMEC e seus parceiros passaram a defender oportunidades para empresas e trabalhadores locais, e a Secretaria de Meio Ambiente começou a incluir condicionantes nesse sentido no licenciamento.
Em 1998, a DVF tornou-se parceira da Fundação Dom Cabral no Espírito Santo, o que acrescentou ao programa a dimensão de gestão. O PDF deu certo com a Vale, a Aracruz e a Samarco e foi levado para o Maranhão, o Pará, a Bahia e Minas Gerais. Segundo Durval, a DVF já atendeu mais de 4 mil empresas, cerca de mil delas no Espírito Santo, com atuação em mais de 20 estados. A metodologia foi publicada em livro em 2009, lançado na MEC SHOW.
O método em quatro fases
O PDF é aplicado em regiões que recebem um projeto de grande impacto e tem como base a indústria de base, que Durval define como “a indústria que constrói a indústria”: engenharia de projetos e gerenciamento, fabricação de equipamentos, montagem e construção civil. As etapas são:
• diagnóstico, de cerca de três meses, que cruza o perfil da demanda com o perfil dos fornecedores e identifica carências de capacitação e certificação;
• implantação, com divulgação das empresas (site, catálogo, painel de dados), encontros de negócios, viagens, visitas e consultoria técnica para ensinar a fazer negócio;
• desenvolvimento, quando a rede começa a andar sozinha;
• consolidação, com o fortalecimento das entidades de classe e associações comerciais da região.
O efeito multiplicador é o argumento central. Um emprego gerado na indústria de base no interior representa de 5 a 15 empregos na cadeia, de transporte e alimentação ao comércio. Hoje, Durval aplica o modelo em Goiás, em regiões de mineração de cobre, ouro e terras raras, incluindo um projeto em Nova Roma, onde ainda não existe nem associação comercial.
Investimentos à vista e o consumo de aço
O levantamento anual de investimentos feito pelo PDF aponta, segundo Durval, R$ 1,5 trilhão em investimentos previstos no Brasil até 2030, quase metade em petróleo e gás, com destaque para a Margem Equatorial, seguido de mineração e de celulose e papel.
Durval também chamou atenção para o consumo de aço. O Brasil produz cerca de 33 milhões de toneladas por ano e consome de 110 a 120 quilos por habitante, contra cerca de 400 nos Estados Unidos e quase mil na Coreia do Sul. O Espírito Santo, com quase 200 quilos por habitante, já consome o dobro da média nacional, uma vantagem que, para ele, ainda é pouco aproveitada.
Empresas que cresceram junto
Durval citou empresas capixabas que passaram pelo programa e hoje são referência nacional, como Imetame, Estel, Fortes Engenharia, Metal Vix, Hidralvit, Conambi e SDM. Muitas, lembrou, tiveram projetos que não deram certo antes de acertar. Para ele, errar faz parte, desde que o risco seja calculado.
Ele contou ainda, pela primeira vez publicamente segundo ele, que acompanhou a Brametal na escolha do terreno quando a empresa decidiu deixar Santa Catarina para ficar perto dos clientes. A fábrica foi para Linhares no início dos anos 2000 e hoje é um dos maiores complexos de estruturas metálicas para transmissão de energia das Américas.
Inovamos, mas não mostramos
Diante da pergunta de Carlos Henrique sobre o que falta para o Espírito Santo se tornar um polo de inovação tecnológica, Durval separou o setor metalmecânico em dois segmentos. Em serviços, o estado já inova: as paradas de manutenção de uma linha da Aracruz, que levavam de 12 a 15 dias, caíram para 8 ou 9 dias com processos desenvolvidos por empresas capixabas, e técnicos da Finlândia vêm conhecer esses métodos.
“A parte de serviço nós inovamos, mas não mostramos. Eu acho que a gente divulga muito pouco.”
O desafio maior está na fabricação sob encomenda, num país em que a indústria de transformação já representou quase 40% do PIB e hoje está em torno de 16%. Durval propõe usar recursos do Fundo Soberano do Espírito Santo para estudar as peças de reposição compradas pelas grandes empresas e desenvolver fornecedores locais, em parceria com as universidades. Com uma condição: inovação precisa de meta e prazo, inclusive para saber a hora de parar.
A conversa também lembrou que o CDMEC passou recentemente por uma mudança de estatuto e se tornou uma ICT, Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação, reforçando os dois eixos que estão na ata de fundação: qualificar as empresas capixabas como fornecedoras e promover o desenvolvimento tecnológico.
Formação técnica e conselho aos jovens
Carlos Jardim Sena trouxe a demanda por qualificação em áreas como descomissionamento, com o Porto Nova Holanda, integridade estrutural e robótica. Para Durval, a falta de mão de obra é um problema mundial e pode ser a chance de o estado virar referência, com cursos curtos e objetivos, como o CDMEC já fez no passado. Ele defende que o governo ajude a vincular a qualificação às licenças dos novos investimentos, como fez a Aracruz ao qualificar 5 mil pessoas na Fábrica C.
Também cobrou mais divulgação das profissões técnicas: um soldador pode ganhar R$ 8 mil por mês, ter carro e casa, mas isso não aparece na comunicação do setor.
O conselho final foi para quem está começando. Durval recomenda um plano de desenvolvimento individual que organize a vida profissional, educacional e pessoal, e paciência para subir degrau a degrau.
“Não existe vitória sem luta. Você não é campeão sem lutar. Nada é dado de graça.”
Gostou deste conteúdo? Ouça o episódio completo do Energize-se nas principais plataformas de podcast. Inscreva-se no canal, curta e compartilhe.
Energize-se é um podcast de iniciativa do CDMEC e da FCEL.










