Ufes: data center de R$ 30 milhões vai atender empresas capixabas - Míriam de Magdala Pinto - MecShow 2026
Superintendente de Projetos e Inovação apresentou na Ilha da Inovação o Nupidata, estrutura de computação de alto desempenho comparável à da Unicamp, e criticou o caminho único das startups para levar pesquisa ao mercado.
UFES na Ilha da Inovação do CDMEC / MecShow 2026.Palestrante: Míriam de Magdala Pinto, superintendente de Projetos e Inovação da Ufes.
A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) apresentou na Ilha da Inovação do CDMEC, durante a MecShow 2026, o que a indústria capixaba pode acessar por meio da Inova Ufes, sua agência de inovação. Quem falou pela universidade foi Míriam de Magdala Pinto, superintendente de Projetos e Inovação, ao lado de Anderson Rozeno Bozzetti Batista, do Ifes, e Alessandro Coutinho Ramos, da UVV.
A Inova Ufes é a porta de entrada para empresas e órgãos públicos que queiram firmar parceria com a universidade. Ela reúne o escritório de projetos, que formaliza acordos e convênios, a diretoria de inovação, que responde pelo núcleo de inovação tecnológica (NIT) e pela incubadora Espaço Empreendedor, em Goiabeiras, e coordenações locais nos campi de Alegre, São Mateus e Maruípe.
Míriam abriu explicando um ponto que costuma gerar confusão: o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação estabelece uma lógica diferente da contratação comum. Quando uma empresa contrata um serviço, os interesses são divergentes e valem as regras de licitação. Em um projeto de inovação, os interesses são convergentes, porque universidade e empresa querem a mesma coisa, e o marco regulatório que se aplica é outro.
Nupidata: 50 mil teraflops abertos ao mercado
O anúncio central foi o Nupidata, Núcleo de Pesquisa e Inovação em Análise e Tratamento Avançado de Dados, que nucleia o eixo de infraestrutura do Programa Capixaba de Inteligência Artificial, construído desde o fim de 2024 em conjunto com Ifes, UVV, FAPES e SECTI. A Ufes já mobilizou mais de R$ 30 milhões para a estrutura:
• R$ 13 milhões da FINEP.
• R$ 10 milhões da FAPES.
• R$ 5 milhões do Funcitec, fundo gerido pela Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI).
• R$ 3,5 milhões de recursos próprios da Ufes, aplicados na reforma do data center.
O resultado será uma capacidade de 50 mil teraflops de processamento, 5 petabytes de armazenamento, backbone dedicado de 100 gigabits e equipe especializada em regime 24 horas por dia, sete dias por semana. Míriam comparou a estrutura à da Unicamp e adiantou o ponto que mais interessa à indústria: a universidade estima usar cerca de 30% dessa capacidade em pesquisa própria, e o restante deve ser aberto a empresas e órgãos públicos em modelo de prestação de serviços. O comissionamento está previsto ainda para 2026.
Ela fez questão de enquadrar a inteligência artificial como tecnologia de propósito geral, como foram a eletricidade e a internet, e tirar daí uma conclusão estratégica para o Estado.
“Não é uma corrida para ser o primeiro. É muito mais uma de sermos os que mais usamos.”
Como funciona o Nova Economia Capixaba na prática
Carlos Henrique Veloso de Carvalho quis saber como a indústria e a academia se encontram dentro do edital Nova Economia Capixaba, da FAPES, que só libera recurso à empresa se houver conexão com uma instituição científica. Míriam explicou que o proponente é necessariamente o empresário, não o pesquisador, e que a Ufes já submeteu oito projetos em parceria, somando cerca de R$ 22 milhões.
O ponto que exige mais conversa, segundo ela, é a propriedade intelectual. Pelo Marco Legal, uma instituição federal não pode ceder gratuitamente a totalidade da titularidade de um ativo, então a cotitularidade entre empresa e universidade é obrigatória, com percentuais definidos no plano de trabalho, junto das entregas previstas, logo no início. Ela reconheceu que o encontro entre os dois lados ainda depende demais de contatos pessoais, de ex-alunos ou de professores que já conhecem determinada empresa, e que ampliar essas conexões é justamente o que precisa melhorar.
A capacidade de sentir dor
Provocada sobre como a sociedade sobreviverá ao avanço da inteligência artificial e da robótica, Míriam recusou tanto a distopia quanto a negação, e trouxe um argumento filosófico.
“O que diferencia a inteligência humana da inteligência das máquinas é a nossa capacidade de sentir dor.”
Para ela, isso desloca o papel humano da operação para a decisão. E cobra uma mudança das instituições de ensino: até aqui o sistema educacional privilegiou o aprendizado horizontal, acumular mais conhecimentos e competências, quando o momento exige desenvolvimento vertical, que amplia a capacidade de julgar, criar, interagir e se importar.
A crítica ao caminho único das startups
Na provocação de Carlos Jardim Sena sobre como monetizar a inovação, Míriam deu a resposta mais contundente do painel. Segundo ela, o Espírito Santo tem tratado a startup como se fosse a única rota possível para levar uma tecnologia ao mercado, e isso tem custado caro. O pesquisador que passa anos desenvolvendo uma tecnologia disruptiva é empurrado a começar do zero em captação, pitch e gestão, perde o foco naquilo em que é excelente, e enquanto isso o prazo da patente corre. Ela citou tecnologias patenteadas na própria Ufes em que, na avaliação dela, esse caminho prestou um desserviço, e defendeu ampliar as formas de conexão com o setor privado, incluindo a transferência direta de tecnologia para grandes empresas.
Míriam também apontou uma carência interna: falta ao NIT expertise de marketing para dar visibilidade ao que a universidade produz. Ela citou como exemplo o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Fotônica, liderado pela Ufes com diversos parceiros internacionais, criado não para ser um instituto de pesquisa, mas para gerar soluções de mercado, com a ambição de projetar chips fotônicos. E deixou um alerta sobre o ecossistema.
“Precisamos ampliar o nível de confiança interinstitucional.”
Assista à apresentação completa no canal do CDMEC no YouTube. Quer conectar sua empresa à capacidade de pesquisa e à infraestrutura de dados do Espírito Santo? Associe-se ao CDMEC.
Apresentação e debate conduzidos por Carlos Henrique Veloso de Carvalho e Carlos Jardim Sena, presidente e diretor do CDMEC.








