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Portocel: o 1º caminhão autônomo em um porto brasileiro - Raul Viana Grossi - MecShow 2026

há 2 dias
4 min de leitura

Na Ilha da Inovação, o Portocel explicou por que virou o primeiro porto do Brasil a operar veículo autônomo e revelou que o setor portuário não tem nenhum fundo obrigatório de inovação.


PORTOCEL na Ilha da Inovação do CDMEC / MecShow 2026. Palestrante: Raul Viana Grossi, do Portocel.


O Portocel foi ao palco da Ilha da Inovação do CDMEC, durante a MecShow 2026, logo depois da Lume Robotics, e não por acaso: o terminal de Aracruz é o primeiro porto do Brasil a integrar veículo autônomo à operação, usando justamente a tecnologia capixaba desenvolvida pela Lume. Quem representou a companhia foi Raul Viana Grossi.

Fundado em 1978 e hoje com 48 anos, o Portocel é uma empresa genuinamente capixaba com cerca de 400 colaboradores, controlada por dois dos maiores produtores de celulose do país, Suzano e Cenibra. O terminal detém o recorde mundial de movimentação de celulose e fechou o último ano com 7,8 milhões de toneladas movimentadas, o maior volume de sua história. Em 2024 a companhia passou também a operar em Santos, o maior porto da América Latina.

A estrutura em Barra do Riacho reúne três berços de atracação para navios e três para barcaças, com acesso ferroviário pela Vitória a Minas e rodoviário pela BR-101. Nascido para operar produtos florestais, o terminal vem diversificando as cargas: já movimentou mais de 50 mil veículos neste ano e opera rochas, produtos siderúrgicos e granéis, com contratos de fertilizantes previstos para entrar entre o fim deste ano e o início do próximo.


Inovação como pilar da estratégia, não como projeto isolado

Raul explicou que a inovação no Portocel não é tratada como iniciativa avulsa, e sim como um pilar do planejamento estratégico, desdobrado em três frentes: digitalização, autonomação e inteligência de dados. O ponto de partida, porém, nunca é a tecnologia.

“A inovação não começa pela tecnologia. Ela começa por alguma dor ou alguma restrição.”

A partir do mapeamento dos gargalos da operação, o terminal busca soluções no ecossistema, com parceiros dentro e fora do Espírito Santo, incluindo startups e universidades. Ele destacou que existe uma governança formal por trás disso, com etapas de pré-seleção, concepção, refinamento e experimentação até o projeto ganhar escala e ser entregue ao time de operações. Sem esse processo, argumentou, a iniciativa inovadora fica pelo caminho, porque toda aposta desse tipo carrega risco de dar errado.


Por que o caminhão autônomo

O veículo autônomo do Portocel faz a movimentação interna da celulose, dos armazéns até o cais e vice-versa, porque a legislação brasileira ainda não permite a circulação em vias públicas. O projeto vem sendo desenvolvido desde 2022 e está concluindo a fase de operação assistida.

O motor da decisão, segundo Raul, foi segurança antes de produtividade. A área de movimentação concentra caminhões, ônibus e empilhadeiras circulando ao mesmo tempo, e a autonomia retira o operador desse ambiente, deslocando-o para uma função de supervisão do sistema. A mesma lógica já havia gerado outro desenvolvimento no terminal: um equipamento automatizado que eliminou a exposição do colaborador ao trabalho em altura.

Os ganhos vêm sendo acompanhados por indicadores financeiros, operacionais e de segurança. Ele citou redução de paradas e ganho de eficiência entre os resultados já capturados, e apontou um efeito colateral relevante: a transição exige formar novas competências na equipe, num momento em que o próprio mercado de mão de obra está mudando de geração.


Quem paga a inovação no setor portuário

Provocado por Carlos Jardim Sena sobre a origem dos recursos, Raul revelou um dado que diferencia o setor. Empresas de energia elétrica são obrigadas por regulação a investir um percentual da receita em pesquisa e desenvolvimento. No setor portuário, não existe nada equivalente.

“Hoje o setor portuário não tem nenhum fundo específico para inovação.”

Ou seja, o investimento do Portocel é iniciativa própria, com política de aporte recorrente, combinando caixa, linhas de fomento e subvenção conforme o grau de maturidade tecnológica de cada projeto. Quando a tecnologia já está madura, ela migra para o fluxo normal de investimento em capital. Justamente por isso, ele defendeu que o setor, o Estado e as federações ampliem a oferta de linhas de crédito e fomento voltadas à inovação portuária.


Capixabizar também os componentes

Carlos Henrique Veloso de Carvalho, presidente do CDMEC, provocou o terminal sobre nacionalizar os componentes eletroeletrônicos usados nessas tecnologias, sobretudo os chips e sensores. Raul respondeu que o interesse existe e é bom para todos, mas esbarra em duas barreiras concretas: o volume ainda pequeno de produção e a falta de recursos para bancar esse tipo de desenvolvimento.

Mesmo assim, apontou uma frente já em curso: o projeto de fotônica da Ufes, voltado ao desenvolvimento de sensores a laser, que abre a possibilidade de fabricação nacional justamente do componente mais caro de um veículo autônomo. Questionado ainda sobre levar a tecnologia para o trajeto entre fábrica e porto, avaliou que percursos curtos e lineares são tecnicamente viáveis assim que a legislação amadurecer.

“O porto do futuro não é o que aplica uma tecnologia isoladamente, mas o que integra isso com os processos e com as pessoas.”

Assista à apresentação completa no canal do CDMEC no YouTube. Quer conectar sua empresa às tecnologias que estão transformando a logística capixaba? Associe-se ao CDMEC.


Apresentação e debate conduzidos por Carlos Henrique Veloso de Carvalho e Carlos Jardim Sena, presidente e diretor do CDMEC.



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